Cordel e Poesia

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Biografia do Poeta Cordelista Silva Dias

Biografia do Poeta Cordelista Silva Dias: sua origem, suas histórias e causos

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domingo, 29 de dezembro de 2013

MEU CURTO TRAJETO DE PÉS E PEDAIS : Silva Dias (À Erivelton- in memória)


Quando sai, meu primeiro desejo
Foi poder chegar
Nenhuma pretensão de partir,
Cada pedalada de ida
Significava o esforço pela volta, pela vida
Meu canto, minha casa, meu lugar
Nunca pensei em ir, em partir, em deixar
Partir para quê? Para onde? Por quê?
Não. Só queria ter chegado
Como os meus pés, meu pedais
Depois de ter pedalado
Meu trajeto curto, encurtado
Em nenhum momento foi desejado
Sonhei, em minhas pedaladas, com a liberdade
Segurei em suas mãos
E até pensei ser livre, mas...
Liberdade é tão somente uma canção triste
O tempo canta, o vento canta
A gente inventa, se encanta, espanta
O tempo todo se canta, se ouve,
Mas...
Liberdade é tão somente a dor
De não se ter
O tempo, a brisa, a canção doce, o sorriso
Pois,
Há uma nuvem negra, um pesadelo
Presente em toda parte
Fazendo-nos partir, partindo-nos
Dilacerando nossos sonhos,
Nossos risos, nossas brisas,
Nossos beijos, nossas asas
Essa é aparte que fica,
Uma taça de absinto,
Quando a gente parte,
Pois o insensível, amargo e mortal
Insiste em nos tirar do caminho
Caminho que tentei seguir
No ir, no vir, num esforço pelo melhor
Viver
Pedalei, suspirei, senti a brisa
Transpirei pelo melhor viver,
Mas...
A liberdade é somente essa canção
A liberdade é somente essa dor
Que eu não quis sentir
Não. Jamais pensei em partir
Para não deixar nenhum de vós partido
Foi somente o insensível
Deixando-me partido
E assim, partindo, deixo-vos
De corações exauridos,
Mas...
Ao moverem os vossos pés, vossos pedais
Lembrai-vos de um esforço pelo cantar
Cante o tempo, a brisa, o sorriso,
Uma canção doce
Um dia virá
Em que haverá
Apenas sonho límpidos
Somente canções doces
E, num abraço, cantaremos juntos de novo.

AMÓRFICO (AMOR TECIDO) : Silva Dias


O amor?
Essa chave mágica
Capaz de abrir qualquer porta?
Essa força alheia
Capaz de romper embaraços?
Esse fogo ardente que se foi?
Ah, o amor!
Se é que um dia foi,
Já não é,
Já se foi.
Ice berg... Beleléu
Nada sólido... Solitude
Tudo líquido... Liquidado
Porto que não aporta,
Aparta
Base que não apóia,
Opõe-se
O amor de homens e mulheres?
Óbvio,
É ápice, ávido, hibrido,
Hipócrita, contagioso,
Voto corrompido, desatinado, descabido.
Amor amórfico,
Amornado... amortecido.

DÉCIMAS ANIMALESCAS : Silva Dias





A Zebra, num certo dia,
Saiu para passear
Numa pastagem a pastar
Listrada de alegria,
Mas a Leoa lhe via
Numa estratégia felina
Passos lentos na campina
Da ardilosa temível
Lança um ataque infalível
A Zebra cai em ruína.

Não deu zebra pra Leoa,
Deu banquete azebrado
Seu desejo saciado
Com o grupo numa boa
Na selva quem fica à toa
Vira alvo e cai no dente
Vem a morte de repente
No olhar do predador
Com o dente devorador
O mais forte segue em frente.

RIO DE A (À ADHERRIO) : Silva Dias

À... A... Á... Há? Ah!
A-D-H-E-R-R-I-O
Anafórico,
Dialético,
Hilário,
Exótico,
Racionário,
Roqueiro,
Insigne,
Oftálmico...
Adher... rio
Adherrio e o rio,
Adere o rio, Adherrio
Aderiu e riu
Riu Adherrio no rio
Adherrio do Rio em riso
Adherriso
Adere o riso
Ria rio de Adherrio,
Ria Adherrio junto ao rio
Riso na água,
Água em riso, água de tanto riso
Adherrio e o rio num largo sorriso.

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A CABEÇA , UM QUADRO, MIL BOLINHAS : Silva Dias


Um quadro.
No quadro há um quadro
Ela está no quadro, próxima ao quadro,
De costas, de frente, De lado
Usa o quadro, faz o quadro, faz-se no quadro
Ela fala, gesticula, cala
Olha e fica de frente para ele,
Ele, no quadro, voa
Voa em várias direções
Voa alto
Ela, de salto,
Continua no seu argumento
De lógica, de silogismos,
Ilógico e, lógico!
Em meio ao fictício, ao fingimento,
Ao fato, ao real
De fato, ela clama, exclama, faz pergunta
Pergunta-se...
Ele, nada responde,
Voa longe, não corresponde
Do tópico, se esconde
Nas asas utópicas
Enquanto ela, em cena, encena,
Exibe-se, abre um sorriso
Fica séria, se abre, abre
Cobra... Torce e retorce feito cobra
Usa a língua, sente a presa
Prende e se prende
No quadro
Ele, preso no vôo da utopia,
Vê, mas, seu olhar, desvia
Olha de fino, num fino olhar,
A retina, afina
E, embora não olhe para sua face
Vê a outra
Por entre a abertura mínima
A outra face vista
Mexe com a sua vista,
Pois das asas, ele avista a vista, bela vista
Ela continua a parte, parte nua,
Mas não parte,
Apenas reparte sua parte
No desejo de acordá-lo do seu sonho
Num ato risonho... Escancarado
E ele, calado, envolvido no instinto,
Excitado,
Voa em direção à face vista
Curte essa parte,
Simples assim,
Na fina condição de artista.

DÉCIMAS ANIMALESCAS : Silva Dias

A foca que é fofoqueira
Nadou pro fundo do mar
Não foi para fofocar
E nem para brincadeira
No uso da nadadeira
Pela busca de alimento
Todo seu contentamento
Transformou-se em aflição
Quando o branco tubarão
Disse: - Você é o meu sustento.

A foca foi para um lado
O tubarão foi também
Dizendo: - Tu nada bem,
Só que eu sou arrojado,
To muito mais preparado
Com toda energia acesa.
A foca focada e presa
Na dentada assassina
Um ataque que fascina
Perversa parte é a proeza.

DÉCIMAS ANIMALESCAS : Silva Dias


 Lá vai ela em sutileza,
Com instinto audacioso
Num nado silencioso
Deslizando em correnteza
Prende a presa com frieza
Bote, abraço sufocante
Quebra ossos num instante
Para poder engolir
Assim é a Sucuri,
Super Serpente Gigante.

Jacaré perde a virada,
Capivara perde o nado,
Sem faro fica o veado,
Perde a pinta onça pintada,
Tartaruga é esmagada
Frente à fome voraz
Nenhum bicho é capaz
De escapar do seu abraço
Suculenta presa em laço
Super Serpente sagaz.





SOCORRO : Silva Dias

Adherrio, socorro!
Socorro, Adherrio!
Sim, Adherrio, é Socorro, Socoooorro.
Se eu corro? Não, não corro.
Só corro se tiver Socorro
Se Socorro não corro
Seorrer sem Socorro?
Não, Adherrio! Não morro, não mooooorro.
Só co
m Socorro, momrro
Mm Socorro me movo,
Não me movo sem Socorro,
Nem sequer um ovo
Não grito “pu” povo,
Grito por Socorro...
Ouve Adherrio, meu grito de novo
Grito nada novo,
Pois eu não me movo
Se não há Socorro,
Socorro, Socorro, Socoooorro!
Adherrio, Socorro,
Socooorro, Adherrio!!!!
Se não tiver Socorro
Eu te... soco,
Soco o murro, mas não morro
Se não tiver Socorro lá do morro,
Eu... so... só... morro
Adherrrrriiiiiiio, Socooooooorro!!!!

DE REPENTE : Silva Dias

Quando os meus olhos
Desviaram-se para a tua direção,
Tive ciência do risco,
Risco de olhar,
Risco do olhar,
Risco de te ver,
Risco verídico.
De repente,
Olhos em foco, focados, flamejados
Um foco em risco,
Foco sem risco
Foco nestes riscos.
Olhos de Sol,
Raios radiantes,
Raios ativos, radioativos
Olhos de Sol, solidários
Com os olhos da Lua,
Clara, gema em clara,
Tão clara lua,
Lua Clara, claridade...
Olhos de Sol gemado, aclarado
Olhos vendo a Lua,
Lua vendo, não vendo... Não, não vendo.
Olhos em Lua, Lua de Venus
Olhos em Vênus, Venus de Lua
Lua e Vênus no olhar,
Vênus em Luar...
Olhos, Luz, Lua, Vênus, Clara, Gema...
Gemam olhos,
Como Vulcano, como Marte, como Anquires,
Gema Sol, gema Lua, gema Vênus.
Olhos radiantes, de raios ativos, radioativos,
Como Vulcão, de repente,
Explosivos,
Fogo, gemidos,
Lavas claras, sob e sobre a Venus da Lua.
Olhos aluados, atrevidos.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

ACORDE: Silva Dias




Acorde...
Acoooorde, acorde!
Não me prove nem me aprove,
Se desejar, reprove-me
Re-pro-ve-me
Ré- pró-vi- mi
Vi Mi, Si, Ré, Dó, Fá, Sol, Lá
Fá, só, lá
Fá solar
Solar Fá, Si, Dó, Ré, Mi
A-bó-ré-si-mi
Aborrece-me
Prove mi, ré... Toque mi, ré
Proooove-me, ré! Tooooque-me, ré!
Provo e reprovo
Ré... é afinado, tocado, executado
Re-afinado
Re-tocado
Re-executado
Re-finado
Ré finado?
Ré é tado
Oooh, retado!
Finado ré...
Fim na do ré
Fim, nado em ré
Ré, nado
Renado
Ré nada?
Ré? Nada naaaada!

Ai que dó!!!!

Entrelinha : Silva Dias




Porque fazer confusão?
Por que confundir poesia com poeta, ou vice-versa?
O poeta é só uma linha
Numa linha,
Entrelinha
Não alinha.
A poesia alinha a linha inversa.

O poeta não é a poesia
Nem a poesia o poeta.
Na mente somente a meta
Só, na meta, mente cria
Só, na meta, mente e recria.

A poesia é o sopro, o sagrado
O sol, o sal, a saliva, o sêmem, o tempero;
O poeta nem mesmo sabe se é
Apenas é... Apenas Zé.
Zé que deixará de ser
Zé que logo não será, perde a linha e o novelo;

A poesia não.
A poesia é mais, muito mais
É forte, é fértil, é fiel, flamável, flegmática, fascinante, flexível;
O poeta?
É frágil, fóbio, frívolo, frustrado, fingível;

Pare de complicar!
Queres interpretar?
Interprete a poesia, esquece o poeta,
Esquece o julgamento,
A quem irás julgar: a poesia, ou o poeta?

Dá Pena :Silva Dias.


A Minha Maior Tristeza?
É Quando Sinto que Estou Sem Mim.
Não há Risos,
Não há Lágrimas,
Não há Cheiro ou saudade;

Não há Dias, 
Não há Noites,

Não há Bem ou Maldade;

Não há Trevas
Nem há Luz,
Não há Guerra nem paz;

Nem há Lúcifer,
Não há Jesus,
Nem o Pecado Mordaz;

Não há Flor,
Não há Espinho
Não há Rio nem Mar;

O que há? Ai, que Pena!
Nem sequer Pena há
E assim, sem Minha Sina
Na Tristeza Assassina,
Sem ter Asas, Menina,
Já não Posso Voar.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Cachorro, rato, barata : Fabricio de Si







            Cachorro, rato, barata. Cachorra, pessoa, cobra, minhoca, verme. Que sou eu? Um ser humano? Um bicho? Uma escrava?
            Eu não tenho direito de pensar, nem de agir, tampouco de reagir. Não posso ser, apenas fingir. Fingir que sou a rainha. Rainha? Rainha de quê? A rainha nua? Só se for. A rainha obrigada. Me perguntaram se eu queria esse reinado? Pertguntaram nada. Isso é reinado? Ham!, isso nem é vida!
            E ai de mim se discordar. Sou uma exilada de minha própria vida, fugida de mim, desde que tomaram conta de mim. Tentei fugir, mas não houve jeito. Houve súplicas, ameaças e certo despotismo disfarçado de poesia. Era música o que eu ouvia? Não, era um decreto de um dono, rei, imperador. Era valsa o que eu dançava? Não, era um carrossel hipnótico, uma espiral para baixo, um pião girando, e eu, brinquedo.
            Eu caí.


            Mas eu cansei desse faz-de-contas, dessa noite sem fim. Erguerei-me, farei passeata, farei protesto, serei blackblock. Agora eu serei a heroína. Motim, golpe de estado, revolução: serei dona de minha própria vida. Chega de valsinha, de Chico, de João e Maria, de ditadura, de mentira, de ser criança e inocente. Chega de cachorro, rato, barata.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Fênix no mundo de Félix : Silva Dias




A estação verão temperava o tempo e o ambiente havia três semanas. O sol ardente e o calor obsessivo provocavam temporais constantes, assustadores. Uma imensidão de raios brilhava durante a queda, enquanto os trovões roncavam como que rachando todo céu. As estações de rádio veiculavam a mesma notícia a todo instante: “O mundo entra em conflito armado pela segunda vez neste século. A Alemanha Nazista de Adolf Hitler invade a Polônia e provoca a reação imediata da França e da maioria dos países do Império Britânico. Assim como outros países, o nosso Brasil, de repente, pode entrar no conflito militar”. As notícias causavam inquietações, dúvidas, expectativas e certa medida de pânico nas pessoas.
Setembro de 1939, Félix completara 20 anos no dia 08 do mesmo mês. Estava na Escola de Cadetes do Exército, em Brasília, cumprindo não o seu, mas o maior sonho do seu pai. Este deixara seu íntimo vibrar ao ouvir as primeiras notícias. Desejava o filho numa missão importante e as notícias eram o indicativo de que tal acontecimento se aproximava. Fez manifestação da alegria à esposa:
-Nosso filho Félix servirá ao país na guerra. Em breve conquistará todas as honras de um herói. Nada neste mundo poder-me-ia dar tanto orgulho.
O largo sorriso ficava expresso no brilho dos olhos. Com uma das mãos segurava o porta-retrato do filho vestido na farda. Havia ganhado de presente meses atrás. Com a outra segurava um charuto Alá Fidel. A fumaça se dispersava no ar, enquanto o homem parecia transcender. A mulher, mesmo sendo de pouca fala, nunca negava sua opinião, seja qual fosse o assunto.
-Besteira, Homem! Exclamou. Maior honra para mim era se ele tivesse aqui, do meu lado, em segurança. É tudo que uma mãe deseja neste mundo.
O homem soltara mais algumas boeiradas pelo canto da boca e, olhando fixamente no olhar do filho em plena fotografia, dissera:
-Estou convicto do porquê de o meu sêmem não ter produzido mais que uma filha em você. O frágil sentimentalismo feminino não é capaz de enxergar horizontes, atravessar fileiras, superar limites, expandir o mundo através das novas conquistas... desvelar novos mundos.  Ai deste mundo se não fosse a coragem e a rebeldia dos deuses! Os Nabucodonozores, os Xerxes, os Faraós, os Césares, os Alexandres Grandes, os Napoleões. Sim, todos eles foram essenciais para o mundo ser o que é. Agora me diga: Onde estão as mulheres? O que elas fizeram?
Estava ciente de que não ficaria sem a devida resposta da mulher. Mulher modesta, sem vaidade na fala nem toxina mortífera na língua. Sem decepção. Suas ideias e opiniões determinadas advinham da intuição e das experiências do dia a dia. Espirituosa, não temia a formação de nenhum doutor.
-Você devia pensar melhor antes de falar certas coisas. Acaso está casado com um homem? E quem te pariu? Cada um deles teve uma mãe, não? Mãe que carregou por nove meses no bucho até chegar o dia de botar na luz do mundo. Depois continuou cuidando de cada um até virar homem. Além disso, eu pego é posta como todos tiveram uma mulher, ou mais de uma. Os livros que tu lê não conta essa parte? 
O pai refletia a sabedoria empírica da esposa, enquanto Félix analisava a informação recebida pelo seu superior: “Fique alerta e prepare o espírito, brigadeiro, a convocação está próxima”. Um piloto em formação, mas habilidoso e com potencial elogiável. Notícias de guerra mexiam com a sua cabeça. Há alguns anos vivia longe da família, por isso era grande a saudade de mãe. Imaginava o orgulho do pai que lhe escrevia todos os meses sem falhar um sequer. Consideração? Sim, mas havia também sempre um desejo de arrancar novidades sobre a sua carreira. Pensava na irmã que estava prestes a completar quinze anos, e no irmão mais novo, seu admirador. Tanto que, quando perguntado sobre o que queria ser quando crescer, respondia: “Quero ser igual a Félix”. Mas as lembranças mais regadas eram as de Fany Fênix. Essas tinham sabor especial. Fênix era sua princesa. Fora seu mais doce sonho durante a adolescência. Continuava sendo. Mesmo distante, as promessas de amor eterno eram alimentadas através de cartas. Fênix dissera: “Te esperarei todo tempo que for necessário, mesmo que os anos sejam demasiadamente longos”. A mente cuidava de relembrar a promessa, e o coração de alimentar os sentimentos e o sonho. Félix transformava-se em imaginação: “Como ela está?” Perguntava-se. Daí, deitado, olhando para cima, projetava uma imagem segundo a última lembrança. “Menina morena... Acho que você já está com um metro e setenta de altura, corpo esbelto de curvas perfeitas. O bumbum... Ai meu Deus, que coisa mais linda! Capaz de esbugalhar até os olhos de um Japa. Os peitos, acredito que... de tamanho médio com bicos apontados. Os cabelos continuam cheirosos, longos e encaracolados. O rosto, quero analisar de perfil. Gosto desse olhar de lado, penetrante, cheio de brilho. O nariz ligeiramente afilado e a boca... Ah, a boca! Pura sensualidade em razão da carnudez dos lábios”. Félix imaginou tanto que adormeceu e sonhou.
O tempo tem pressa de passar, e passa. Passara tão rápido que o país já estava envolvido diretamente nos conflitos daquela que se tornaria a grande guerra. A convocação fora feita. O nome de Félix constava numa lista de mais de vinte e cinco mil convocados. Brigadeiros, fuzileiros navais, soldados. Toda essa gente do militarismo. O pai de Félix abrira um sorriso. Sentira o corpo inteiro vibrar devido às batidas emocionadas do coração. Pegara duas taças e uma garrafa de vinho envelhecido que guardara para uma ocasião como aquela. Brindara como se o filho estivesse presente. Na degustação do vinho acendera um Fidel especial. Por outro lado, a mãe, emotiva, não conseguia conter o choro. Dentro do quarto, de joelhos, rogava suas preces solicitando proteção Divina para o filho amado. A irmã consolara sua mãe. Dissera que o mesmo Deus o levaria, também o traria de volta são e salvo. As lágrimas de um pranto duplo regavam o abraço. Já o irmão jovenzinho, sem saber o que fazer e que dizer, ficara perplexo.
No mesmo bairro da cidade, em sua casa, Fênix amargava a notícia desagradável. Mau pressentimento batendo a porta do seu coração. Calafrios repentinos no corpo. A dúvida refletia em seu espelho.  A promessa de noivado, as juras amor eterno, de repente, tudo vira uma incógnita. Sintomas da aflição. Insegurança aflorando nos nervos. Os pensamentos não eram bons. O de nunca mais vê-lo, por exemplo, permeava o ambiente cerebral. Tal possibilidade apunhalava, impiedosamente, sua alma fragilizada. Vozes estranhas sopraram em seu ouvido. Uma música de fundo com fúnebre melodia, vez por outra, aterrorizava seu espírito.
Em 1942, o governo americano solicita o apoio do Brasil, em função da intensificação dos conflitos. A guerra começa a ganhar capítulos extras. O Japão, por exemplo, investe contra os Estados Unidos, e o Brasil decide assumir sua posição junto às forças aliadas. No entanto, somente em 1944, fora enviado o primeiro agrupamento de homens à luta. Chegara, pois, para Félix o dia de partir para a guerra. Despedia-se de todos. Palavras em meio às lágrimas e abraços davam o tom da cena. Sua mãe, a irmã e a namorada num choro sincrônico. O irmão caçula desejou ser maior de idade para seguir junto. Ganhou um abraço carinhoso e um quepe de presente. Agradeceu num sorriso angelical. Seu pai ficara por último. Nada de formalidades antecipadas para o momento da despedida. Na verdade, não gostava do termo. Era somente um até logo especialmente significante. No entanto, seu abraço fora o mais longo e mais forte. Na satisfação do momento seus olhos brilharam sem permitir que lágrimas descessem. Segurou as mãos do filho com firmeza, sentindo completamente o gosto da realização. E antes que o filho lhe dirigisse primeiro qualquer palavra, fora enfático:
-Meu filho, o mundo foi feito para homens de fibra, para corajosos, para conquistadores. Não tenho dúvidas de que você é do naipe. É o maior orgulho que já me aconteceu. Acha que existem muitos heróis no mundo? Não, são poucos, e você é um deles. Na volta, terei a honra de ver uma medalha em teu peito. Será o momento em que até o mais ignorante reconhecerá o teu valor de eterno herói. Quem pode tirar isso de você? Ninguém, meu filho. Todo forte nasce para vencer. Agora vai lá e lute com honra porque o nosso país e o mundo precisam das tuas habilidades.
Com a mesma firmeza de caráter, o jovem rapaz mirou o olhar do pai, dando prova de madureza e controle. Mesmo diante de tamanha emoção, segurou as Lágrimas, manteve a postura. Desejou agradecer o apoio recebido, assim o fez.
-Um forte descende de outro. O mesmo sangue corre em nossas veias. Minha honra é tê-lo como pai. Não haveria nada disso se não fosse por você. Honrarei o meu país, porém, antes de tudo, honrei o grande pai que tenho.
O pai lhe dispensou um sorriso. Soltou suas mãos e apanhou, numa das gibeiras do paletó, um pequeno estojo. Depois o entregou dizendo:
-Não há honra maior para um pai, do que ter um filho herói. Pegue este estojo, guardei para te dar no momento certo. Leve e cuide de que fique sempre ao teu alcance. Será muito útil para ti. Saberá quando abrir e no que pensar ao fazer uso. Sei que conduzirá bem os vôos do teu pássaro de guerra assim como os vôos do pensamento. Portanto, meu filho, vá e lute.
-Obrigado, meu pai. Fique em paz.
 O jovem voou para a guerra. Pisou em território estranho, e não demorou a perceber que a língua predominante ali era o inglês. Sentiu-se um cowboy sobre seu cavalo de asas, junto às forças aliadas. Ouvia os Americanos afirmarem: “Somos os mocinho, vamos acabar com eles”. A cada missão, Félix convencia os aliados e a si de que seu pai estava certo. Agora ele era herói. Seu cavalo de asas parecia imbatível em campos de batalha, abatendo o inimigo sem peso de consciência. Canhões, campos, pontes, cidades, casas, homens, outros tantos pássaros de guerra, tudo ia abaixo num piscar de olhos. Os olhos de Félix viam de tudo. Mas de tanto voar e de tanto ver, conquistou o cansaço e, junto como cansaço, inquietações mentais. Depois de muitos meses em missões arriscadas, combates intensos, escapadas milagrosas do fogo cruzado inimigo, baixas de colegas, Félix sentira necessidade de voar em outras asas, as do pensamento. Teve permissão para guardar seu cavalo. Fora voar em outro espaço, o da diversão. Ali, os combatentes podiam, pelo menos por um pouco, enterrar as agruras da guerra. Bebidas, mulheres, músicas, cinema, teatro, tudo que fosse capaz de fazer os homens relaxar.  Félix bebeu, fumou, conheceu algumas garotas, porém, a angústia permanecia viva.
Uma semana de folga, e no último dia, deitado em sua cama, a alma reclamara do vazio imenso que havia. Na mente brilhou a luz do estojo. Aquele era o momento certo para abri-lo. Abrira. Havia doze fidéis e um acendedor prateado. Acendera um. Automaticamente, acenderam-lhes inúmeras lembranças, saudades, desejos. Um vôo intenso e transcendente. Sentiu-se em casa, longe e livre da guerra. O abraço fraterno do pai, as lágrimas e os beijos carinhosos da mãe e da irmã.  O olhar e o sorriso inconfundível do irmão caçula. O beijo quente e prazeroso da sua princesa Fênix. Voltara a sorrir para a vida. Fora aclamado como herói, recebido como rei. Como tal, decidira coroar sua princesa. Lógico! Sem ela qual o sentido de ser rei? Para quê ser herói? Sem ela, não. Tornara-se dono da palavra, decretava leis, ordenava e era atendido imediatamente. Portanto, deu a ordem: “Traga-a para mim nos devidos trajes”. Estava linda, deslumbrante. O palácio completamente lotado e as cornetas anunciando o momento de glória. Os súditos, emocionados, portavam-se de pé de ambos os lados. O rei, no altar, parecia impaciente como se a espera fosse interminável. De repente... “Meu Deus! É ela, minha impecável princesa!” O rei a avistara de longe. A princesa vinha em passos lentos, e vinha, e vinha. Até que numa distância, próxima do trono, a princesa para. A princípio, entende-se como uma atitude normal da cerimônia. Não. A princesa enxerga o que nenhum outro súdito consegue ver. O rei não é o Félix que ela conhecera, está transformado. Seus olhos são como duas brasas acesas que refletem um aspecto sombrio. Na sua cabeça, invés de uma coroa, ela vê um pássaro vermelho, agressivo, soltando chamas ardentes pelo bico que tem a forma duma espada. Sua vestimenta é maltrapilha, fétida, repleta de moscas e bichos que caem por todos os lados, num altar banhado de sangue. O mau cheiro incomoda seu olfato. Fênix entra em desespero e começa gritar:
-Meu Deus, este não meu Félix! Não é um rei, é um demônio. Eu quero meu Félix, meu Félix, eu o quero de volta!
O rei não compreende o motivo da reação desesperada. Do altar, pede calma à princesa:
-Minha princesa, tenha calma! Sou eu, o teu Félix. Venha até a mim, não tenha medo. Veja aqui, sou eu mesmo, o teu rei!
No entanto, a cada instante, na visão da princesa, todo cenário mostra ser um lagar escabroso e aterrorizante. Das paredes do castelo minam sangue, do teto caem corpos deformados de homens, mulheres, crianças. Há membros decepados por toda parte, braços com mãos que acenam e cabeças que pedem socorro. Fênix não suporta, decide fugir e sai correndo. Os guardas do palácio são ordenados a impedí-la, mas é em vão. A princesa foge às pressas. Nada mais é capaz de fazê-la ficar. O rei, a essa altura, já não tem ideia do que fazer. Está aflito, inquieto, suando ao extremo, questionando-se: “Você foi embora assim? Dessa forma? E agora? E a minha vida, o que vai ser de mim?
Noutra cama de campanha na cabana, um companheiro de batalha percebe a aflição do jovem brigadeiro. Julga o evento como um pesadelo e decide acordá-lo. Félix está encharcado de suor, mas, aos poucos, sente certo alívio em poder respirar. São os reflexos da guerra. Heranças amargas tantas vezes não compreendidas. Passiveis da devida reflexão feita em terapia a fim de se amenizar a dor. A guerra é de fato um acúmulo de atos horríveis, desonestos, impiedosos, insanos, tudo resumido num acontecimento sem sentido e extremamente traumático. Félix não tivera tempo para reflexão. No dia seguinte, fizera seu último vôo. A sua medalha de honra, “O Sangue do Brasil”, fora colocada dentro do estojo e, em 1945, entregue ao seu pai que... Dessa vez, não conteve o pranto.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

OFICINAS DE LITERATURA DE CORDEL-Escola Necy Novais em Barro Alto-BA.




















sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Oficinas de Literatura de Cordel realizadas na Escola Necy Novais, cidade de Barro Alto, BA.

Oficinas de Literatura de Cordel, realizadas na Escola Necy Novais, na Cidade de Barro Alto, entre os dias 13 e 18 de Setembro de 2013, com estudantes do Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio, dos turnos Matutino Vespertino e Noturno.