Cordel e Poesia

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Biografia do Poeta Cordelista Silva Dias

Biografia do Poeta Cordelista Silva Dias: sua origem, suas histórias e causos

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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

MEU PAPEL

Silva Dias.

Eu não sou consultor,
Muito menos doutor.
Sou um desertor, mas vivo satisfeito;
Sou mais um ser humano
Que tem feito plano
E comete engano por ser imperfeito;

Quero a paciência,
Não a violência
Nem a prepotência, pra seguir trilhando;
Neste meu caminho
Não ando sozinho,
Pois tenho o carinho de quem ta me amando;

De tudo eu vejo,
Nem tudo desejo.
Aproveito o ensejo para escrever;
A inspiração
Abre o meu coração
E eu entro em ação para poder viver;

A minha alegria
É a poesia
Que a cada dia alimenta o meu peito;
Neste meu jardim
Tão belo e sem fim
Construo pra mim um mundo perfeito;

Este é o meu mundo
De prazer profundo
E a cada segundo ele me completa;
Doce feito mel
É o meu papel
De escrever cordel porque sou poeta.

A PELEJA DE SILVA DIAS COM XICOLEITE


No treze com doze em linguagem popular
Silva Dias.

SILVA DIAS
Xico, istô te convidano
Para o desafio primêro
Não será o derradêro
Apenas tá começano
O povo aqui escutano
Cantadores menestréis
No treze com doze e onze com déis
No nove com oito e sete com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Nesta primêra peleja
Veja só como gagueja
O cantadô de vocêis.

XICOLEITE
Ô Silva se tu almêja
Fazê um verso perfeito
Precisa apredê direito
Como a viola manêja
Se não ela te alêja
Com mais de mil decibéis
No treze com doze e onze com déis
No nove com oito e sete com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Tá cantano alterado
E todo desafonado
O cantadô de vocêis.

 SILVA DIAS
Eu istô acustumado
A ganhá a multidão
Na rua ou no salão
O povo tem miscutado
Sô poeta respeitado
Até pelos coronéis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Pelejá é o meu custume
Tá morreno de ciúme
O cantadô de vocêis.

XICOLEITE
Vejo que tu num assume
Teu erro e tua fraqueza
Isso me causa tristeza,
Purtanto, tu te aprume
Não adianta quexume
Como fáis os tabaréis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Tô massacrano em lição
E deixano sem ação
O cantadô de vocêis.

SILVA DIAS
Tenho uma boa educação
É por isso que respeito
E num vejo só defeito
No amigo, no irmão,
Mas num vô lhe dá razão
Nem me curvá aos seus péis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Eu jamais fui humilhado
Tô deixano invergonhado
O cantadô de vocêis.
 
XICOLEITE
Silva, tu tá inganado
Tudo qu’eu falo eu garanto
E vô te causá ispanto
Depois qu’eu dé meu recado
Tu te julgas educado
Como faz os bacharéis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Nesta nossa canturia
Exponho a hipocrisia
Do cantadô de vocêis.

SILVA DIAS
Num tenho a tua mania
De fazer acuzação,
Mas procuro com atenção
Demonstrá sabedoria
O meu brilho se irradia
Nos palcos ou nos papéis
Com treze, com doze, com onze e com déis
Com nove, com oito, com sete e com seis
Com cinco, com quatro+um+dois e +trêis
Com toda eficiença
Falo da incompetença
Do cantadô de vocêis.

XICOLEITE
Óia quanta prepotença
Num seja tão arrogante
Fáis papéu de inguinorante
Manchano tua consciença
Cantadô com indecença
Não serve nem pás raléis
Com treze, com doze, com onze e com déis
Com nove, com oito, com sete e com seis
Com cinco, com quatro+um+dois e +trêis
Num aceito disacato
Veja como é insensato
O cantadô de vocêis.
 
SILVA DIAS
Não me venha com maltrato
Me chamano de demente
O que tu fala é somente
Uma fraqueza de fato
Minha firmeza no ato
Me protege das maréis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Eu vô dando a minha prova
E jagano dento da cova
O cantadô de vocêis.

XICOLEITE
O meu verso se renova
Te garanto que num minto
Eu canto tudo que sinto
Quando começo uma trova
Na lua chêa ou na nova
Nos rios e igarapéis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Nesta peleja primêra
Eu já dei uma rastêra
No cantadô de vocêis.

SILVA DIAS
Falano dessa manêra
O pobre do Xicoleite
Espera que eu aceite
O seu monte de bestêra,
Vô interrá tua cavêra,
No oco dos caboréis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Com minha simples cultura
Já mandei pra sepultura
O cantadô de vocêis.

XICOLEITE
O povo só te atura
Porque istô ao teu lado
Se não tu tava arrombado
Com essa falsa cumpustura
Tô te dano cubertura
Sem te cobrá um minréis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Tu já perdeu meu abrigo
É assim que eu castigo
O cantadô de vocêis.

SILVA DIAS
Sempre que canto contigo
Observo a tua fala,
Mas é logo ela se cala
Por num aguentá cumigo
Num esqueça o q’eu te digo
Teus frutos são infiéis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Bota a viola no saco
Porque é inútil e fraco
O cantadô de vocêis.

XICOLEITE
Eu já sei que os macaco
Tem fiúra e osadia,
Que as bicha de hoje em dia
São louca pra tê tabaco,
Mas faz os balacobaco
Arregassano os anéis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Tua fama eu conheço
Hoje causei o tropeço
Do cantadô de vocêis.

SILVA DIAS
Teu respeito eu mereço,
Mais o meu tu não merece
Por isso é que tu padece
Como puta sem apreço
Que apanha desd’o começo
Nos quartos dos cabaréis
Com treze com doze, com onze e com déis
Com nove com oito, com sete e com seis
Com cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Vive sofreno na vara
Não tem vergonha na cara
O cantadô de vocêis.

XICOLEITE
Eu já sei que tu dispara
Tua língua peçonhenta
Ela acusa e inventa
Até quem num vê repara
Qu’essa duença num sara
E é quem causa o teu revéis
Com treze com doze, com onze e com déis
Com nove com oito, com sete e com seis
Com cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Dêxa de sê imprudente!
Tô ficano impasciente
Com o cantadô de vocêis.

SILVA DIAS
Ô Xico, seu insolente
Vô me despedi agora
Porque tu se apavora
Com meu verso eficiente
Na poesia de repente
Eu sô como as cascavéis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Dei meu bote sem tê dó
Enrolei e dei um nó
No cantadô de vocêis.

XICOLEITE
Cobra rasteja no pó
Por isso é que tu rasteja
Tá cansado da peleja
E Insopado de suó
Apanhaste de cipó
Como as bicha dos quartéis
No treze com doze, com onze e com déis
No nove com oito, com sete e com seis
No cinco com quatro+um+dois e +trêis.
Foi-se a cobra machucada
Abusei de dá lapada
No cantadô de vocêis.

ATÔNITO

Silva Dias.

É puro fogo toda essa trilha onde caminho...
A minha senda é feita de calor ardente,
Pois o meu corpo, em chama, queima lentamente
E há na menteuma inexistência de carinho.

Sigo sem ninho, me sinto mórbido, indigno,
Uma vez que, meu riso converteu-se em prostração.
O meu olhar, vermelho, tácito, em distorção,
Pareço-me ofídico, vertiginoso e maligno.

Preso nas garras dessa tristeza atônita,
Mergulho em sonhos no desígnio de me achar
Porque o mundo é mesmo uma verdade indômita,

Mas na ilusão eu posso me realizar,
Pois ganho a vida numa realidade imaginária
Feita de luz, sem essa sombra temerária.

DRAMA DE VIVER


Silva Dias
.

Não sou protagonista desse espetáculo surreal,
Apenas personagem, e faço o meu papel
Hora para o bem, hora para o mal,
Pois tudo é dilema num anfiteatro mítico e cruel.

Bati por tantas vezes na porta do céu,
Tantas vezes que até me calejei,
Pedindo e pedindo feito um tabaréu.
Depois de ignorado, eu desconfiei.

Por fim, infernizei na porta do inferno
Mas diabo algum quis saber de mim.
Nem triste, nem alegre, nem desesperado.

Se não me quer o bem e nem o mal, enfim,
Com o meu desvario sigo abraçado
E, mesmo abandonado, hei de ser eterno.

Dusanjeando


Adaptação:
SILVA DIAS.

Neste ambiente profundissimamente hipocondríaco que me causa repugnância e faz subir-me à boca uma ânsia análoga à ânsia que se escapa da boca de um cardíaco, sinto-me como o filho do carbono e do amoníaco, um monstro de escuridão e rutilância que sofre, desde a infância, a influência má dos signos do zodíaco.
Na órbita elipsoidal dos meus olhos em desalento, sinto-me tremer a respiração como o soldado que, em solidão, rasga a sua farda no desespero do último momento. Pobre homem miserável que sou, pois, devido ao fato de morar entre feras, sinto inevitável necessidade de também ser fera. De fato é a lama que me espera já que, verdadeiramente, ninguém assistiu ao formidável enterro de minha última quimera, somente a “Ingratidão”, esta pantera, tem sido a minha companheira inseparável. No entanto, eu não me acostumo... Não, não me acostumo.
Ah, definitivamente, um Urubu pousou na minha sorte! Tome, pois, Doutor, esta tesoura e corte a minha singularíssima pessoa! Que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração depois da morte? Porque o verme, este operário das ruínas, que o sangue podre das carnificinas come, e à vida, em geral declara, vive a espreitar-me os olhos para roê-los, e há de deixar-me apenas os cabelos na frialdade inorgânica da terra.
Nestes insólitos e imprevisíveis dias de viver, a mão vil que me afaga é a mesma que me apedreja, também, a boca que me amaldiçoa de fato é aquela mesma que me beija. Mas, o beijo, amigo, é apenas a véspera do escarro. Que me adianta então, a chama súbita de um fósforo para que eu acenda a insignificância dum cigarro? Não, não acenderei, nem hei de apedrejar a mão vil que me afaga e, muito menos, escarrar na boca que me beija, mas  eu vos direi apenas num segundo que se a minha vida há de dissolver igualmente a uma célula caída na aberração de um óvulo infecundo, fique sabendo que é o agregado abstrato das saudades que ficará batendo nas perpétuas grades do último verso que eu fizer no mundo.

LAMENTO

Silva Dias

Eu trago o tempo em meus versos
E exponho os versos ao tempo
Repletos de imagens, de fatos
Guardados no pensamento
Lembranças que fazem vibrar

As cordas de cada sentimento
E o peito entoa a canção
Que nasce das águas do lamento.

O laço do tempo calou
O canto do carro de boi
Boiada, Aboio e Vaqueiro
Também nesse laço se foi
Na sela do tempo em galope
Nesse Cavalo Matreiro
Só resta regar a saudade
Num Lamento Catingueiro

É assim que o tempo
Tem feito no dia a dia
Converte a poeira em asfalto
E tece a lembrança em poesia 
Na louca corrida do tempo
O meu refúgio é uma pescaria
Na louca viagem do tempo
O meu refúgio é uma pescaria.

É esse de fato o presente
Que o Presente trouxe pra mim
Um curral vazio e sem cheiro
Um laço certeiro... Enfim,
Uma vida agitada, sem campo
Sem paisagem e sem porteira
Viver não é mais brincadeira
Se o futuro espelha o fim.

É assim que o tempo
Tem feito no dia a dia
Converte a poeira em asfalto
E tece a lembrança em poesia 
Na louca corrida do tempo
O meu refúgio é uma pescaria
Na louca viagem do tempo
O meu refúgio é uma pescaria.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Processo de Regressão

DE: SILVA DIAS
Eu vivo impressionado
Como o povo, hoje em dia,
Anda tão obcecado
Por lixo, por porcaria.
É na alimentação,
Na forma de diversão,
No proceder em geral.
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

E ninguém parece ver
O quanto isso é ruim
Reprovaram bons costumes,
Nos valores, deram fim.
A coisa ficou foi preta!
Ser decente é ser careta,
Ser certo não é normal.
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

Homens, mulheres, crianças
Rumam à mesma direção
Buscam a independência
Sem temor, preocupação
Numa relação sem respeito
Cada um faz do seu jeito,
Desprezando a moral.
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

A televisão explora
Do povo, a ignorância
Com uma programação
Suja, em extravagância
Manobra as suas mentes
Deixando-os inconscientes
Do que é prejudicial
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

Invadiram os nossos lares
Com essas loucas imagens
Horríveis, desvirtuadas
E paupérrimas mensagens
Incapazes de instruir...
O seu papel é destruir
As virtudes, afinal
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

E as pessoas se alegram
Com toda essa indecência
Elas aceitam de tudo
Sem peso de consciência
A realidade é triste
Porque o erro persiste
E o bem se tornou mal.
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

Já não bastam as novelas
Com seus textos desprezíveis
Repletos de incentivos
Às práticas inconcebíveis:
Violência e traição
Mentira, roubo e ambição.
Uma tragédia total.
Nesse doentio processo
Big Bosta az sucesso
Com conteúdo imoral.

As tardes de babaquices
Tem Márcia, Nelson, Leão
É um monte de patéticos
Com fofocas, confusão.
A mais pobre concorrência
Brigando pela audiência
Do telespectador vagal
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

Programanóides noturnos
Apelam à pornografia
É a Galisteu e a Gimenez
Na mesma “EPI-HEBI-DEMIA”
Aberrações são expostas
Todos fazendo apostas
Que o “RELES” é o canal.
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

Olha que isso não é tudo!
Besteirol tem de montão.
As disputas do Gugu
Com a besta do Faustão,
Nos domingos (Nada Novo)
Ganham a atenção do povo
Que gosta de lamaçal
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

Se o Estado não é exemplo,
A mídia também não é.
A família perdeu o rumo,
A escola ta em que pé?
A Igreja apodreceu
E o homem desvaneceu
No meio de um vendaval.
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

O que podemos esperar
De um Sistema aviltado?
Governantes são corruptos;
O povo é desinformado;
A lei não dá segurança
Nada inspira confiança,
Pois o mundo infernal.
Nesse doentio processo
Big Bosta faz sucesso
Com conteúdo imoral.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Silva Dias - Lágrimas da ausência d´água



Silva Dias

Quando viajo de trem
Às margens do Rio Pinheiros,
Sinto tristeza e desgosto
Com as ações dos traiçoeiros
O rio, sem peixe, barco e pescador,
Envolto no descaso, no lixo e na dor,
Perdera seu rumo e o seu porto.
Mergulhado no profundo desalento
Afogara-se todo em excremento
Tornando-se raso, arrasado e morto.

Em meio ao desconforto,
Imagino a exuberância do seu passado.
Um cenário que dava gosto...
Por uma densa e nobre floresta era cercado.
Brilhando como o olho da menina
A sua água pura e cristalina
Cantava e corria em liberdade
Qual sangue que, da terra, é a vida.
A sua, porém, logo fora interrompida
Pelas mãos da ganância e da maldade.

Na mais plena capacidade,
Como fonte e morada de espécies animais
Alimentava e produzia frutos à felicidade
E abriam-se flores enfeitando mananciais.
Porém, insanos racionais em tirania,
Confundiram bravura com covardia
Quando, em tamanha agressividade,
E com as atitudes mais letais,
Causaram ao rio, âmagos efeitos infernais...
Áspera e fatal enfermidade.

Os índios, filhos da real simplicidade,
Navegavam suas águas em paquetes
Guiados pelo “Grande Espírito” em sã atividade
Entre a caça e a pesca, amavam seus filetes.
Encantados com a extrema beleza,
Veneravam e temiam a grandeza
De um rio pai, pacífico e forte,
Tanto dentro quanto fora d água.
Agora, resta-nos essa grande mágoa:
Índios, florestas e os rios ceifados pela morte.

Condenado a essa horrível e triste sorte,
Por veneno, teve invadido o seu leito.
Sendo embriagado desde o sul ao norte
Sufocando veias, massacrando o peito.
Toda a sua força fora enfraquecida
Pela fraqueza estúpida, má e atrevida
De “homens desumanos” que destroem a terra
Desejando tudo, pensando serem donos,
Mas, há o mesmo fim para os colonos
Quando, finalmente, tudo se encerra.

Pois, foi invadindo e declarando guerra,
Feito um tenebroso e ágil furacão,
Que baniram aldeias, os arcos e as flechas,
Tirando do índio a pele e o coração.
Com espírito impuro e devastador
Cortaram as artérias do amor
Apagando a luz do verde que havia.
Nessa fúria pelo progresso funéreo,
Transformaram um santuário em cemitério.
Restando-nos apenas dor e agonia.

Tenho observado, pois, a cada dia
Esse corpo escuro em decomposição.
Jaz a céu-aberto... Cena que arrepia.
O mau cheiro forte invade a estação.
Todo mundo olha e finge que não vê
Que o rio Pinheiros e o Tietê
Hoje, são finados e nem descansam em paz.
Nunca receberam honra nem respeito
Só esgoto e lixo dentro do seu leito.
Para os insensatos, isso tanto faz.

O homem é insano, é ríspido e voraz;
Tem amado o ódio e desprezado a vida;
De cuidar da terra nunca foi capaz;
Prega em vão a paz, pois é um suicida.
Seu progresso é feito com destruição
E sua sabedoria vira aberração
Quando vê a vida na prata e no ouro.
Julga serem fontes de maior prazer,
Sem sensibilidade para entender
Que a natureza é o seu melhor tesouro.

O peito do poeta mergulhado em choro
Deságua suas lágrimas num triste olhar
Sabendo que o pranto é insuficiente
Pra lavar o sujo e o rio salvar.
Porém, sua esperança, desejo e sentimento,
Trás em cada verso, em cada pensamento.
Um grito de protesto feito em poesia
A todos que estão, ainda, em dormência,
Precisando despertar a consciência
Para que o futuro seja de alegria.

Pra calar o silêncio dessa covardia,
A voz da poesia ecoa com bravura.
Os nós da ignorância e da hipocrisia
Serão desfeitos com os laços da cultura.
A força do amor junto à educação
Fará, com o tempo, uma transformação.
A lógica vem da atitude, não da sorte,
Como a árvore e o fruto vêm da plantação.
Assim, como a luz sempre vence a escuridão,
A vida, um dia, vencerá a morte.