Cordel e Poesia

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Causos e Contos

A RUA DO DESSOSSEGO
SILVA  DIAS

O dia era farto e quente,
Um dia bem temperado...
A rua no globo do olho
E um olhar bem requintado
Via Rita de João Crente,
“Moendo” Geval no dente
Depois que ele foi chifrado.

-Eta povo engraçado!
Exclamou Joaquim Florido.
Diz que o “cabra” foi chifrado?
Por que não diz foi traído?
E se o “cabra” se “zangá”,
“Num” é “pirigoso” “matá”
Um “fie da gota” atrevido?

-Pois dá no mesmo, Florido,
O povo ta “acustumado”,
É coisa da nossa língua,
“Num” tem como “sê” mudado
Cabra “num” é um animal?
Tu fala e acha normal
Nem por isso é maltratado.

-E o boi “matô” o coitado?
Perguntou Chico Pitu.
-Que “matô”, seu bestaiado!
Ele é corno como tu.
Dois “boi” “cum muié bunita”.
Disse Neuza Carmelita,
Botando fogo no angu.



-Neuzinha, jaracuçu,
Tu vai “pená” um “bucado”,
“Pu” causa da tua língua,
Desse veneno malvado
Que bota tudo a “perdê”.
Se prepare pra “sofrê”.
Disse Chico, embriagado.

-Cala a boca, conformado,
Tu “num” passa d’um banana!
Sinira ta se “atracano”
“Cum” “Carlim” de Dona Joana,
“Purque num aguentô” mais
Os “momento” infernais
Do lado de um cu de cana.

-E tu pensa que é bacana,
Gooorda, lambisgóooia “fêa”,
“Ficá” de língua nos dente
“Falano” da vida “alêa”?
S’eu “parmiá” minha vara
Te “dô” “cum” ela na cara,
Pois tu merece uma “pêa”!

-E eu te boto é na “cadêa”...
Pensa que “sô” indefesa?
Vem “falá” de me “batê”,
Bicho sem delicadesa!
Tem lei Maria da Penha,
Danos morais... Apois venha
Chamá de gorda, uma obesa!


Tava a rua inteira acesa
Espiando a situação.
Dona Rita, que odiava
Cachaça e prostituição,
Com a língua queimava o povo
Fosse velho ou fosse novo,
E de qualquer condição.

-Preste muita atenção
Chico Pitu e Geval,
“Vocêis” dois “num vale” nada,
“Fais” a gente passá mal
“Cum” essa pinga nojenta.
Aqui ninguém mais aguenta
Pé inchado sem moral.

-Que futuro afinal
Tem nossos “fie” como herança
Se a rua ta “arroiada”
De “trapo” sem confiança
Que vive em pé de balcão?
Alma que pertence ao cão
“Num” tem nem dá esperança.

-Ah, eu trago na lembrança
O passado de João Crente.
Disse Chico a Dona Rita.
-Uma besta fera insolente,
Ladrão fino, um pistolêro,
Defloradô, maconhêro...
“Isqueceu”, sua serpente?



-Ele “robô” seu Vicente,
“Matô” Zaqueu Jeraluis,
“Cumeu” Aninha de Bilô
E Selma de Zé “Cuscuis”,
A foooorça e... Barbarizô.
Agora diz que “transformô”
Em um servo de “Jesuis”?

E o olhar fazia jus
Por observar de perto
João Crente se aproximando
Pra dar uma de esperto
Com uma bíblia na mão,
Vestindo um paletozão
Que o deixava encoberto.

Com o livro na mão, aberto,
Foi logo se defendendo:
-Eu cometi meus pecados,
Sim, Jesus viu e está vendo
Que o João mau e vagabundo
Morreu para este mundo
E em um novo ta vivendo.

“Os ébrios vivem gemendo,
Vagando abandonados
Como Chico e Geval,
Dois insanos condenados,
Guiados por satanás,
E assim como Barrabás,
Ainda são admirados”.


“Só que vós sereis julgados
Com o fogo devorador
Que Deus lançará no mundo,
No dia da grande dor.
Mas se quiser salvação
E sair da escuridão,
Peçam perdão ao Senhor”.


“Pois ele é Deus de amor,
De justiça e de bondade;
É quem purifica a alma
De todo ódio e maldade;
É quem nos dá esperança,
A força e a confiança
Pra ganhar a eternidade”.

-“Ói” a falsa santidade,
Pastô, você ta “pecano!”.
Exclamou Chico Pitu.
“Cumé” que fica xingano
Dois cidadão de “valô”,
“Cê” ta maluco, “pastô”?
Que diabo é “Ebro” e insano?

-Pobre Chico, leviano!
Ébrio é bêbado, embriagado
E se te chamo de insano
É por está desorientado,
Dominado pelo vício.
Entendeu, seu estropício?
Você é mesmo um coitado.


Geval, que estava ao lado,
Um sujeito perspicaz,
Professor aposentado
Em um sistema mordaz
Que não lhe rendeu valor,
Sentia o pleno calor
Da discussão pertinaz.


De inserir-se foi capaz
No contexto do sermão,
Assim dissera a João Crente,
Sem de um gole abrir mão:
-A Igreja é só um prato
E o pastor come de fato
É à custa de cada irmão.

“Teu novo mundo é, senão,
Um reduto do engano,
Pois aqui o personagem
Traça e executa o plano
Porque é conveniente
Dizer que mudou e é crente
Pra conquistar leviano”.

“Sei que entrei pelo cano,
Porém, quero perguntar:
Tu fala tanto em mudança,
Por que não pode mudar
Tua mulher fofoqueira,
Linguaruda e barraqueira?
Vai tu e ela quetaaar”!


O povo ria sem parar,
Dava até dor de barriga
Irritando dona Rita,
Mulher disposta à briga,
Pois desceu do pedestal
E foi encarar Geval,
Alimentando a intriga.

-Oh seu “fie” de rapariga,                         
“Professozim” fracassado,
Quem tem que “mudá” é tu
Que vive abandonado
E pra ninguém é “mudelo”.
Tua “dô” de “cutuvelo”
É porque João é amado.


Dedé gritou: - Apoiado!
Rita Preta tem razão.
Mas ela, enraivada, disse:
-Preta é a tua condição,
Lombriguento, vara fina.
Vai “cuidá” de tua menina
A quenga ta de buchão.   
 

-Oh muiezinha do cão!
To “falano” a seu favor
E ela vem de lá pra cá
Disparando dissabor.
Vai pro inferno, arrombada!
Tu é “fêa” e mal amada,
Quem ta certo é o professor.

-“Vamos Ritinha, minha flor
Deixe esses ímpios de lado”.
Disse o pastor à mulher.
-O mundo ta condenado,
Mas nós temos a vitória
Já alcançamos a glória
Do caminho iluminado.

E João Crente foi vaiado
Devido ao que falou,
Pois alguns não entenderam
O termo “Ímpio” que usou
Causando indignação.
Portanto, na agitação
Dedé de Lau, perguntou:


-Me diga uma coisa, “pastô”:
Por que ta “xingano” a gente
“Cum” esse “negoço” de “impo”,
É “purque” “num somo” crente?
Ele respondeu: - Dedé,
Ímpio é só alguém sem fé...
É um termo diferente.


E a vida seguiu em frente
No tempo de cada dia
O dessossego da rua
Feito de angústia e alegria,
Abrange o antigo e o novo
Da cultura de um povo
No real e na fantasia.

E o olhar evidencia,
O profano e o sagrado,
Depois de observar
Com sentido aguçado
O popular e o erudito
Assentando por escrito
Um presente do passado.

Porém, tudo é reprisado
Na rua da inquietação,
A temática discutida
É roubo, crime e traição,
O drama da vida real
O povo ama é a parte mal
De rádio e televisão.

E toda essa confusão
Na discussão da temática
É devido à linguagem
Irrefletida e enfática
Do culto que inculto é
Por considerar “mané”
Quem não conhece gramática


O globo do olho, em prática,
Fitando o bem e o mal
Viu que os dois caminham juntos
De mãos dadas, afinal,
Por ambos se tem apego
E Na rua do dessossego
Este clima é comunal.


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