A estação verão temperava o tempo e o
ambiente havia três semanas. O sol ardente e o calor obsessivo provocavam
temporais constantes, assustadores. Uma imensidão de raios brilhava durante a
queda, enquanto os trovões roncavam como que rachando todo céu. As estações de
rádio veiculavam a mesma notícia a todo instante: “O mundo entra em conflito
armado pela segunda vez neste século. A Alemanha Nazista de Adolf Hitler invade
a Polônia e provoca a reação imediata da França e da maioria dos países do
Império Britânico. Assim como outros países, o nosso Brasil, de repente, pode entrar
no conflito militar”. As notícias causavam inquietações, dúvidas, expectativas
e certa medida de pânico nas pessoas.
Setembro de 1939, Félix completara 20 anos no
dia 08 do mesmo mês. Estava na Escola de Cadetes do Exército, em Brasília,
cumprindo não o seu, mas o maior sonho do seu pai. Este deixara seu íntimo
vibrar ao ouvir as primeiras notícias. Desejava o filho numa missão importante
e as notícias eram o indicativo de que tal acontecimento se aproximava. Fez
manifestação da alegria à esposa:
-Nosso filho Félix servirá ao país na guerra.
Em breve conquistará todas as honras de um herói. Nada neste mundo poder-me-ia dar tanto orgulho.
O largo sorriso ficava expresso no brilho dos
olhos. Com uma das mãos segurava o porta-retrato do filho vestido na farda.
Havia ganhado de presente meses atrás. Com a outra segurava um charuto Alá
Fidel. A fumaça se dispersava no ar, enquanto o homem parecia transcender. A
mulher, mesmo sendo de pouca fala, nunca negava sua opinião, seja qual fosse o assunto.
-Besteira, Homem! Exclamou. Maior honra para
mim era se ele tivesse aqui, do meu lado, em segurança. É tudo que uma mãe
deseja neste mundo.
O homem soltara mais algumas boeiradas pelo
canto da boca e, olhando fixamente no olhar do filho em plena fotografia, dissera:
-Estou convicto do porquê de o meu sêmem não
ter produzido mais que uma filha em você. O frágil sentimentalismo feminino não
é capaz de enxergar horizontes, atravessar fileiras, superar limites, expandir
o mundo através das novas conquistas... desvelar
novos mundos. Ai deste mundo se não fosse
a coragem e a rebeldia dos deuses! Os Nabucodonozores, os Xerxes, os Faraós, os
Césares, os Alexandres Grandes, os Napoleões. Sim, todos eles foram essenciais
para o mundo ser o que é. Agora me diga: Onde estão as mulheres? O que elas
fizeram?
Estava ciente de que não ficaria sem a devida
resposta da mulher. Mulher modesta, sem vaidade na fala nem toxina mortífera na
língua. Sem decepção. Suas ideias e opiniões determinadas advinham da intuição
e das experiências do dia a dia. Espirituosa, não temia a formação de nenhum
doutor.
-Você devia pensar melhor antes de falar
certas coisas. Acaso está casado com um homem? E quem te pariu? Cada um deles
teve uma mãe, não? Mãe que carregou por nove meses no bucho até chegar o dia de
botar na luz do mundo. Depois continuou cuidando de cada um até virar homem.
Além disso, eu pego é posta como todos tiveram uma mulher, ou mais de uma. Os
livros que tu lê não conta essa parte?
O pai refletia a sabedoria empírica da
esposa, enquanto Félix analisava a informação recebida pelo seu superior:
“Fique alerta e prepare o espírito, brigadeiro, a convocação está próxima”. Um
piloto em formação, mas habilidoso e com potencial elogiável. Notícias de
guerra mexiam com a sua cabeça. Há alguns anos vivia longe da família, por isso
era grande a saudade de mãe. Imaginava o orgulho do pai que lhe escrevia todos
os meses sem falhar um sequer. Consideração? Sim, mas havia também sempre um desejo
de arrancar novidades sobre a sua carreira. Pensava na irmã que estava prestes
a completar quinze anos, e no irmão mais novo, seu admirador. Tanto que, quando
perguntado sobre o que queria ser quando crescer, respondia: “Quero ser igual a
Félix”. Mas as lembranças mais regadas eram as de Fany Fênix. Essas tinham
sabor especial. Fênix era sua princesa. Fora seu mais doce sonho durante a
adolescência. Continuava sendo. Mesmo distante, as promessas de amor eterno
eram alimentadas através de cartas. Fênix dissera: “Te esperarei todo tempo que
for necessário, mesmo que os anos sejam demasiadamente longos”. A mente cuidava
de relembrar a promessa, e o coração de alimentar os sentimentos e o sonho. Félix
transformava-se em imaginação: “Como ela está?” Perguntava-se. Daí, deitado,
olhando para cima, projetava uma imagem segundo a última lembrança. “Menina
morena... Acho que você já está com um metro e setenta de altura, corpo esbelto
de curvas perfeitas. O bumbum... Ai meu Deus, que coisa mais linda! Capaz de
esbugalhar até os olhos de um Japa. Os peitos, acredito que... de tamanho médio
com bicos apontados. Os cabelos continuam cheirosos, longos e encaracolados. O
rosto, quero analisar de perfil. Gosto desse olhar de lado, penetrante, cheio
de brilho. O nariz ligeiramente afilado e a boca... Ah, a boca! Pura
sensualidade em razão da carnudez dos lábios”. Félix imaginou tanto que
adormeceu e sonhou.
O tempo tem pressa de passar, e passa.
Passara tão rápido que o país já estava envolvido diretamente nos conflitos
daquela que se tornaria a grande guerra. A convocação fora feita. O nome de
Félix constava numa lista de mais de vinte e cinco mil convocados. Brigadeiros,
fuzileiros navais, soldados. Toda essa gente do militarismo. O pai de Félix
abrira um sorriso. Sentira o corpo inteiro vibrar devido às batidas emocionadas
do coração. Pegara duas taças e uma garrafa de vinho envelhecido que guardara
para uma ocasião como aquela. Brindara como se o filho estivesse presente. Na
degustação do vinho acendera um Fidel especial. Por outro lado, a mãe, emotiva,
não conseguia conter o choro. Dentro do quarto, de joelhos, rogava suas preces
solicitando proteção Divina para o filho amado. A irmã consolara sua mãe.
Dissera que o mesmo Deus o levaria, também o traria de volta são e salvo. As
lágrimas de um pranto duplo regavam o abraço. Já o irmão jovenzinho, sem saber
o que fazer e que dizer, ficara perplexo.
No mesmo bairro da cidade, em sua casa, Fênix
amargava a notícia desagradável. Mau pressentimento batendo a porta do seu
coração. Calafrios repentinos no corpo. A dúvida refletia em seu espelho. A promessa de noivado, as juras amor eterno,
de repente, tudo vira uma incógnita. Sintomas da aflição. Insegurança aflorando
nos nervos. Os pensamentos não eram bons. O de nunca mais vê-lo, por exemplo,
permeava o ambiente cerebral. Tal possibilidade apunhalava, impiedosamente, sua
alma fragilizada. Vozes estranhas sopraram em seu ouvido. Uma música de fundo
com fúnebre melodia, vez por outra, aterrorizava seu espírito.
Em 1942, o governo americano solicita o apoio
do Brasil, em função da intensificação dos conflitos. A guerra começa a ganhar
capítulos extras. O Japão, por exemplo, investe contra os Estados Unidos, e o
Brasil decide assumir sua posição junto às forças aliadas. No entanto, somente
em 1944, fora enviado o primeiro agrupamento de homens à luta. Chegara, pois,
para Félix o dia de partir para a guerra. Despedia-se de todos. Palavras em
meio às lágrimas e abraços davam o tom da cena. Sua mãe, a irmã e a namorada
num choro sincrônico. O irmão caçula desejou ser maior de idade para seguir
junto. Ganhou um abraço carinhoso e um quepe de presente. Agradeceu num sorriso
angelical. Seu pai ficara por último. Nada de formalidades antecipadas para o
momento da despedida. Na verdade, não gostava do termo. Era somente um até logo
especialmente significante. No entanto, seu abraço fora o mais longo e mais
forte. Na satisfação do momento seus olhos brilharam sem permitir que lágrimas
descessem. Segurou as mãos do filho com firmeza, sentindo completamente o gosto
da realização. E antes que o filho lhe dirigisse primeiro qualquer palavra,
fora enfático:
-Meu filho, o mundo foi feito para homens de
fibra, para corajosos, para conquistadores. Não tenho dúvidas de que você é do
naipe. É o maior orgulho que já me aconteceu. Acha que existem muitos heróis no
mundo? Não, são poucos, e você é um deles. Na volta, terei a honra de ver uma medalha
em teu peito. Será o momento em que até o mais ignorante reconhecerá o teu
valor de eterno herói. Quem pode tirar isso de você? Ninguém, meu filho. Todo
forte nasce para vencer. Agora vai lá e lute com honra porque o nosso país e o
mundo precisam das tuas habilidades.
Com a mesma firmeza de caráter, o jovem rapaz
mirou o olhar do pai, dando prova de madureza e controle. Mesmo diante de
tamanha emoção, segurou as Lágrimas, manteve a postura. Desejou agradecer o
apoio recebido, assim o fez.
-Um forte descende de outro. O mesmo sangue
corre em nossas veias. Minha honra é tê-lo como pai. Não haveria nada disso se
não fosse por você. Honrarei o meu país, porém, antes de tudo, honrei o grande
pai que tenho.
O pai lhe dispensou um sorriso. Soltou suas
mãos e apanhou, numa das gibeiras do paletó, um pequeno estojo. Depois o entregou
dizendo:
-Não há honra maior para um pai, do que ter
um filho herói. Pegue este estojo, guardei para te dar no momento certo. Leve e
cuide de que fique sempre ao teu alcance. Será muito útil para ti. Saberá
quando abrir e no que pensar ao fazer uso. Sei que conduzirá bem os vôos do teu
pássaro de guerra assim como os vôos do pensamento. Portanto, meu filho, vá e
lute.
-Obrigado, meu pai. Fique em paz.
O
jovem voou para a guerra. Pisou em território estranho, e não demorou a
perceber que a língua predominante ali era o inglês. Sentiu-se um cowboy sobre
seu cavalo de asas, junto às forças aliadas. Ouvia os Americanos afirmarem:
“Somos os mocinho, vamos acabar com eles”. A cada missão, Félix convencia os
aliados e a si de que seu pai estava certo. Agora ele era herói. Seu cavalo de
asas parecia imbatível em campos de batalha, abatendo o inimigo sem peso de
consciência. Canhões, campos, pontes, cidades, casas, homens, outros tantos
pássaros de guerra, tudo ia abaixo num piscar de olhos. Os olhos de Félix viam
de tudo. Mas de tanto voar e de tanto ver, conquistou o cansaço e, junto como
cansaço, inquietações mentais. Depois de muitos meses em missões arriscadas,
combates intensos, escapadas milagrosas do fogo cruzado inimigo, baixas de
colegas, Félix sentira necessidade de voar em outras asas, as do pensamento. Teve
permissão para guardar seu cavalo. Fora voar em outro espaço, o da diversão.
Ali, os combatentes podiam, pelo menos por um pouco, enterrar as agruras da
guerra. Bebidas, mulheres, músicas, cinema, teatro, tudo que fosse capaz de
fazer os homens relaxar. Félix bebeu,
fumou, conheceu algumas garotas, porém, a angústia permanecia viva.
Uma semana de folga, e no último dia, deitado
em sua cama, a alma reclamara do vazio imenso que havia. Na mente brilhou a luz
do estojo. Aquele era o momento certo para abri-lo. Abrira. Havia doze fidéis e
um acendedor prateado. Acendera um. Automaticamente, acenderam-lhes inúmeras
lembranças, saudades, desejos. Um vôo intenso e transcendente. Sentiu-se em
casa, longe e livre da guerra. O abraço fraterno do pai, as lágrimas e os beijos
carinhosos da mãe e da irmã. O olhar e o
sorriso inconfundível do irmão caçula. O beijo quente e prazeroso da sua
princesa Fênix. Voltara a sorrir para a vida. Fora aclamado como herói, recebido
como rei. Como tal, decidira coroar sua princesa. Lógico! Sem ela qual o
sentido de ser rei? Para quê ser herói? Sem ela, não. Tornara-se dono da
palavra, decretava leis, ordenava e era atendido imediatamente. Portanto, deu a
ordem: “Traga-a para mim nos devidos trajes”. Estava linda, deslumbrante. O
palácio completamente lotado e as cornetas anunciando o momento de glória. Os
súditos, emocionados, portavam-se de pé de ambos os lados. O rei, no altar,
parecia impaciente como se a espera fosse interminável. De repente... “Meu Deus!
É ela, minha impecável princesa!” O rei a avistara de longe. A princesa vinha
em passos lentos, e vinha, e vinha. Até que numa distância, próxima do trono, a
princesa para. A
princípio, entende-se como uma atitude normal da cerimônia. Não. A princesa
enxerga o que nenhum outro súdito consegue ver. O rei não é o Félix que ela
conhecera, está transformado. Seus olhos são como duas brasas acesas que
refletem um aspecto sombrio. Na sua cabeça, invés de uma coroa, ela vê um
pássaro vermelho, agressivo, soltando chamas ardentes pelo bico que tem a forma
duma espada. Sua vestimenta é maltrapilha, fétida, repleta de moscas e bichos
que caem por todos os lados, num altar banhado de sangue. O mau cheiro incomoda
seu olfato. Fênix entra em desespero e começa gritar:
-Meu Deus, este não meu Félix! Não é um rei,
é um demônio. Eu quero meu Félix, meu Félix, eu o quero de volta!
O rei não compreende o motivo da reação
desesperada. Do altar, pede calma à princesa:
-Minha princesa, tenha calma! Sou eu, o teu
Félix. Venha até a mim, não tenha medo. Veja aqui, sou eu mesmo, o teu rei!
No entanto, a cada instante, na visão da
princesa, todo cenário mostra ser um lagar escabroso e aterrorizante. Das
paredes do castelo minam sangue, do teto caem corpos deformados de homens,
mulheres, crianças. Há membros decepados por toda parte, braços com mãos que
acenam e cabeças que pedem socorro. Fênix não suporta, decide fugir e sai
correndo. Os guardas do palácio são ordenados a impedí-la, mas é em vão. A princesa
foge às pressas. Nada mais é capaz de fazê-la ficar. O rei, a essa altura, já não
tem ideia do que fazer. Está aflito, inquieto, suando ao extremo,
questionando-se: “Você foi embora assim? Dessa forma? E agora? E a minha vida,
o que vai ser de mim?
Noutra cama de campanha na cabana, um
companheiro de batalha percebe a aflição do jovem brigadeiro. Julga o evento
como um pesadelo e decide acordá-lo. Félix está encharcado de suor, mas, aos
poucos, sente certo alívio em poder respirar. São os reflexos da guerra.
Heranças amargas tantas vezes não compreendidas. Passiveis da devida reflexão
feita em terapia a fim de se amenizar a dor. A guerra é de fato um acúmulo de
atos horríveis, desonestos, impiedosos, insanos, tudo resumido num
acontecimento sem sentido e extremamente traumático. Félix não tivera tempo
para reflexão. No dia seguinte, fizera seu último vôo. A sua medalha de honra,
“O Sangue do Brasil”, fora colocada dentro do estojo e, em 1945, entregue ao
seu pai que... Dessa vez, não conteve o pranto.