Eu
sou a cara do medo,
Segurança
insegura,
Certeza
de impunidade,
A
lei da total loucura,
Suborno
e violação,
Mas
não conheço prisão
Roubar
também é cultura.
Sou
covil de fraudadores,
Berço
da corrupção
De
tantos Nicos Lalaus,
Toda
espécie de ladrão.
O
político incompetente,
A
angústia do inocente
Implorando
solução.
A
imagem do descaso
Com
o sofrimento infantil,
A
face triste do medo
Neste
mundo doentio,
O
mendigo e a solidão,
Sou
a luz e a escuridão
Dessa
pátria mãe hostil.
País
da bola, da ginga,
Do
esporte campeão,
Alegria
dos festejos,
Carnaval
e São João,
A
orgia do puteiro,
Sacanagem
o ano inteiro
Sem
qualquer preocupação.
Sou
o perdido analfabeto
Abraçado
à ignorância,
Explorado
pelo ódio,
Pelos
punhos da ganância.
Nos
becos do contrabando
Continuo
traficando,
Pois
não me dão importância.
Um
coração maltratado
Agonizando
à toa,
Olho
que enxerga e não vê
O
sentimento que voa.
Há
tristeza no meu riso,
Pois
não tenho o que preciso
E
o meu grito não ecoa.
Eu
sou o desesperado
Vegetando
nas vielas
Com
ratos, surtos e balas
Que
comandam as favelas
Nos
guetos do preconceito
Sou
a causa e o efeito
De
incontroláveis mazelas.
A
verdade que machuca
Nesta
bruta realidade,
A
tristeza da notícia.
Sou
vítima da crueldade,
O
forte clamor da pobreza,
Uma
geração indefesa
Implorando
liberdade.
Sou
a agonia presa
Cortando
meu próprio eu,
A
lágrima derramada
Do
filho que se perdeu
Sem
colo para dormir,
Sem
um carinho sentir
E
na solidão morreu.
Uma
faca de dois gumes
Para
melhor te cortar,
Estrela
que não é vista
Porque
não pode brilhar,
A
ponta de um espinho,
Filhote
longe do ninho
Tentando
se encontrar.
A
lida do dia a dia,
Tua
calejada mão,
A
pele que é tão queimada
Do
sol quente do sertão,
Santo
suor derramado,
Mas
nunca valorizado
Por
causa da ingratidão.
Sou
o reflexo da miséria,
A
folha que já secou,
A
miragem num deserto,
O
fruto que não vingou,
O
certo ainda errado,
Pobre
que vive humilhado
E
a casa que desabou.
Sou
o rio poluído,
A
chuva que não caiu,
A
dor de ser tua mágoa,
Piada
que ninguém riu,
O
beijo que não foi dado,
O
sabor desaprovado,
Prazer
que ninguém sentiu.
A
floresta definhada,
Flor
que não desabrochou,
Um
jardim agonizando
E
o jardineiro que chorou,
Pássaro
que já não canta,
Semente
que não se planta,
Canção
que ninguém cantou.
Sou
a Letra em decadência,
Música
sem melodia,
A
aberração do sucesso,
A
mais completa baixaria.
A
poesia não lida,
Lembrança
já esquecida,
País
da hipocrisia.
Mas
ainda acredito
Na
esperança em mim.
Há
uma luz no fim do túnel,
Deixarei
de ser ruim
Curando,
pois, minha dor
Serei
apenas amor
E
alegria sem fim.






