Cachorro, rato,
barata. Cachorra, pessoa, cobra, minhoca, verme. Que sou eu? Um ser humano? Um
bicho? Uma escrava?
Eu não tenho
direito de pensar, nem de agir, tampouco de reagir. Não posso ser, apenas fingir.
Fingir que sou a rainha. Rainha? Rainha de quê? A rainha nua? Só se for. A
rainha obrigada. Me perguntaram se eu queria esse reinado? Pertguntaram nada.
Isso é reinado? Ham!, isso nem é vida!
E ai de mim se
discordar. Sou uma exilada de minha própria vida, fugida de mim, desde que
tomaram conta de mim. Tentei fugir, mas não houve jeito. Houve súplicas,
ameaças e certo despotismo disfarçado de poesia. Era música o que eu ouvia?
Não, era um decreto de um dono, rei, imperador. Era valsa o que eu dançava?
Não, era um carrossel hipnótico, uma espiral para baixo, um pião girando, e eu,
brinquedo.
Eu caí.
Mas eu cansei
desse faz-de-contas, dessa noite sem fim. Erguerei-me, farei passeata, farei
protesto, serei blackblock. Agora eu serei a heroína. Motim, golpe de estado,
revolução: serei dona de minha própria vida. Chega de valsinha, de Chico, de
João e Maria, de ditadura, de mentira, de ser criança e inocente. Chega de
cachorro, rato, barata.


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