Texto extraído do livro "Coversando com a Solidão"
ainda não publicado, de Silva Dias.
Não sei o que seria de mim se você na estivesse comigo neste agitado mundo metropolitano. Já observou como as pessoas que sobrevivem por aqui são tão frias, insensíveis e desvairadas? Não é impressionante como esta cidade cresce tão assustadoramente para todos os lados, como acolhem a todos os que chegam de todas as partes do mundo e, também, como ela faz com que as pessoas percam seus sentimentos de carinho, de consideração e de respeito pelo próximo, deixando-as mal educadas, egoístas, medrosas, covardes e desconfiadas até do vento que sopra ao seu redor? Essa energia metropolitana é desumana, desonesta, mórbida e destrutiva. Não consigo me adaptar a este tipo de sobrevivência. Às vezes, fico de bobeira em diferentes lugares desta cidade só para observar e tentar compreender o comportamento desesperado dessa pobre gente escrava e prisioneira deste círculo vicioso. E não pense que é uma tarefa fácil, pois não é mesmo. Há uma situação totalmente paradoxal e quem analisa, cuidadosamente, vê e sabe que o que digo aqui é a mais pura verdade.
Por exemplo, as condições em que esta mega cidade se encontra não são nada favoráveis para a saúde física, emocional, espiritual e psicológica de nenhum dos seus moradores, quer sejam ricos ou pobres. A própria imagem física, isto é, a construção dela já é paradoxal. Esses prédios gigantescos e cheios de espetáculos, com suas janelas de vidros claros ou escuros apresentam a exímia competência da engenharia civil demonstrada através de estilos modernos e exorbitantes em todas as construções que formam o mundo pomposo. Porém, em meio a tudo isso, encontra-se o mundo do descaso e da vergonha, da desestrutura, da paupérrima desorganização e da simplicidade assustadora das favelas. Que mundo estranho! A discrepância não é somente uma impressão que talvez se tenha a primeira vista, ela é real, desonesta e doentia. E tudo rola numa normalidade tão impressionante que dá a impressão de que o mundo tenha sido criado para ser assim mesmo, ou seja, uma parte tem que pertencer à nobreza, luxúria, exuberância e autosuficiência, enquanto que a outra tem que ser da escória, da miséria, do abandono e da carência tantas vezes ao extremo. E gente como eu que jamais se acostumou com a desigualdade e que jamais se conformará com isso tudo, sente na pele e no íntimo as punhaladas da injustiça e acaba sofrendo muito mais do que nunca deveria.
Depois, têm tantas coisas a serem consideradas que até deixa o observador perplexo. Tudo isto aqui está poluído de todas as formas que se possa imaginar. A poluição do ar, por exemplo, chegou a um estado tão crítico que o percurso que se faz do trabalho para casa é o suficiente para deixar a pele repleta de substâncias tóxicas e cancerígenas. Eu tenho feito várias experiências por observar cuidadosamente a condição da roupa, das mãos, do rosto, em especial, o nariz e os olhos e vejo como ficam afetados pela cor escura e mal cheirosa da poluição. O mal está literalmente em nossa cara, mas existe uma multidão que não vê, outra que finge não vê, ainda outra que apesar de vê, acha que nunca irá sentir seus efeitos. Enquanto isso, tantos outros preferem ignorar o problema. Isto vale para os nobres e para os miseráveis.
No entanto, há um risco que se corre em relação à poluição sonora, à poluição das águas, à séria irresponsabilidade para com o lixo que é exposto, à proliferação mortífera das drogas, à incontrolável exploração dominadora da prostituição. E quem disse que o risco não se torna ainda maior devido à falta de segurança para com toda a violência que atinge cada ponto desta gigantesca cidade brasileira e que faz a sua exagerada população viver cada dia mais doente?
Os excessos existentes por aqui me deixam inconformado e aborrecido. São os rios e os córregos que não existem mais como antes, pois, onde antes havia água em abundância para saciar os peixes, a vegetação e os animais de toda sorte que por aqui habitavam, hoje são apenas canais de dejetos, adaptados para receberem os mais fétidos esgotos e toneladas de lixo de toda espécie, que são jogados todos os dias por uma multidão de pessoas mal educadas, insensíveis e de consciências minúsculas, que parecem desconhecer todos os princípios básicos de higiene, de respeito e de sentimento sincero ao próximo e ao meio ambiente. E parece que eu mencionei “Meio Ambiente”? Pobre do “Meio Ambiente”! Na verdade, em relação ao “Meio Ambiente”, acho que mais da metade deste meio já foi pro espaço. O que ainda nos resta vive a agonizar. Basta olhar o “Ambiente” para se ter a confirmação de como anda o meio.
Tenho analisado todas as partes e observo que o desespero é a única imagem visível, pois o desconforto está em todas as coisas e por todos os lados. Nas residências, por exemplo, há insegurança e violência, às vezes interna, e quase sempre que vem de fora; há problemas com as chuvas que estão sempre caindo e causando alagamentos, desabamentos, prejuízos materiais e, acima de tudo, prejuízos humanos quando eliminam dezenas e dezenas de vidas; há desconforto nos ônibus lotados, nos trens, nos táxis e em todos os veículos que precisam se locomover para, juntos, causarem os maiores engarrafamentos de um trânsito cada vez mais comprimido e caótico. Esta é uma verdade diária que se inicia nas primeiras horas em que é preciso sair de casa para se chegar ao trabalho, ou no final do dia quando é necessário sair do trabalho e voltar para casa. O desconforto está até nos espaços de lazer como parques, praças, cinemas, shoppings, restaurantes, bares e danceterias, pois em todos estes locais faz-se presente o imprevisível e até mesmo o que já é previsível devido a essa inegável e mortal realidade, embora, não aceita. E depois de ficar analisando tudo isso e muito mais, acabei escrevendo essa poesia:


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