Cordel e Poesia

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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Silva Dias - Lágrimas da ausência d´água



Silva Dias

Quando viajo de trem
Às margens do Rio Pinheiros,
Sinto tristeza e desgosto
Com as ações dos traiçoeiros
O rio, sem peixe, barco e pescador,
Envolto no descaso, no lixo e na dor,
Perdera seu rumo e o seu porto.
Mergulhado no profundo desalento
Afogara-se todo em excremento
Tornando-se raso, arrasado e morto.

Em meio ao desconforto,
Imagino a exuberância do seu passado.
Um cenário que dava gosto...
Por uma densa e nobre floresta era cercado.
Brilhando como o olho da menina
A sua água pura e cristalina
Cantava e corria em liberdade
Qual sangue que, da terra, é a vida.
A sua, porém, logo fora interrompida
Pelas mãos da ganância e da maldade.

Na mais plena capacidade,
Como fonte e morada de espécies animais
Alimentava e produzia frutos à felicidade
E abriam-se flores enfeitando mananciais.
Porém, insanos racionais em tirania,
Confundiram bravura com covardia
Quando, em tamanha agressividade,
E com as atitudes mais letais,
Causaram ao rio, âmagos efeitos infernais...
Áspera e fatal enfermidade.

Os índios, filhos da real simplicidade,
Navegavam suas águas em paquetes
Guiados pelo “Grande Espírito” em sã atividade
Entre a caça e a pesca, amavam seus filetes.
Encantados com a extrema beleza,
Veneravam e temiam a grandeza
De um rio pai, pacífico e forte,
Tanto dentro quanto fora d água.
Agora, resta-nos essa grande mágoa:
Índios, florestas e os rios ceifados pela morte.

Condenado a essa horrível e triste sorte,
Por veneno, teve invadido o seu leito.
Sendo embriagado desde o sul ao norte
Sufocando veias, massacrando o peito.
Toda a sua força fora enfraquecida
Pela fraqueza estúpida, má e atrevida
De “homens desumanos” que destroem a terra
Desejando tudo, pensando serem donos,
Mas, há o mesmo fim para os colonos
Quando, finalmente, tudo se encerra.

Pois, foi invadindo e declarando guerra,
Feito um tenebroso e ágil furacão,
Que baniram aldeias, os arcos e as flechas,
Tirando do índio a pele e o coração.
Com espírito impuro e devastador
Cortaram as artérias do amor
Apagando a luz do verde que havia.
Nessa fúria pelo progresso funéreo,
Transformaram um santuário em cemitério.
Restando-nos apenas dor e agonia.

Tenho observado, pois, a cada dia
Esse corpo escuro em decomposição.
Jaz a céu-aberto... Cena que arrepia.
O mau cheiro forte invade a estação.
Todo mundo olha e finge que não vê
Que o rio Pinheiros e o Tietê
Hoje, são finados e nem descansam em paz.
Nunca receberam honra nem respeito
Só esgoto e lixo dentro do seu leito.
Para os insensatos, isso tanto faz.

O homem é insano, é ríspido e voraz;
Tem amado o ódio e desprezado a vida;
De cuidar da terra nunca foi capaz;
Prega em vão a paz, pois é um suicida.
Seu progresso é feito com destruição
E sua sabedoria vira aberração
Quando vê a vida na prata e no ouro.
Julga serem fontes de maior prazer,
Sem sensibilidade para entender
Que a natureza é o seu melhor tesouro.

O peito do poeta mergulhado em choro
Deságua suas lágrimas num triste olhar
Sabendo que o pranto é insuficiente
Pra lavar o sujo e o rio salvar.
Porém, sua esperança, desejo e sentimento,
Trás em cada verso, em cada pensamento.
Um grito de protesto feito em poesia
A todos que estão, ainda, em dormência,
Precisando despertar a consciência
Para que o futuro seja de alegria.

Pra calar o silêncio dessa covardia,
A voz da poesia ecoa com bravura.
Os nós da ignorância e da hipocrisia
Serão desfeitos com os laços da cultura.
A força do amor junto à educação
Fará, com o tempo, uma transformação.
A lógica vem da atitude, não da sorte,
Como a árvore e o fruto vêm da plantação.
Assim, como a luz sempre vence a escuridão,
A vida, um dia, vencerá a morte.


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