Adaptação:
SILVA DIAS.
Neste ambiente profundissimamente hipocondríaco que me causa repugnância e faz subir-me à boca uma ânsia análoga à ânsia que se escapa da boca de um cardíaco, sinto-me como o filho do carbono e do amoníaco, um monstro de escuridão e rutilância que sofre, desde a infância, a influência má dos signos do zodíaco.
Na órbita elipsoidal dos meus olhos em desalento, sinto-me tremer a respiração como o soldado que, em solidão, rasga a sua farda no desespero do último momento. Pobre homem miserável que sou, pois, devido ao fato de morar entre feras, sinto inevitável necessidade de também ser fera. De fato é a lama que me espera já que, verdadeiramente, ninguém assistiu ao formidável enterro de minha última quimera, somente a “Ingratidão”, esta pantera, tem sido a minha companheira inseparável. No entanto, eu não me acostumo... Não, não me acostumo.
Ah, definitivamente, um Urubu pousou na minha sorte! Tome, pois, Doutor, esta tesoura e corte a minha singularíssima pessoa! Que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração depois da morte? Porque o verme, este operário das ruínas, que o sangue podre das carnificinas come, e à vida, em geral declara, vive a espreitar-me os olhos para roê-los, e há de deixar-me apenas os cabelos na frialdade inorgânica da terra.
Nestes insólitos e imprevisíveis dias de viver, a mão vil que me afaga é a mesma que me apedreja, também, a boca que me amaldiçoa de fato é aquela mesma que me beija. Mas, o beijo, amigo, é apenas a véspera do escarro. Que me adianta então, a chama súbita de um fósforo para que eu acenda a insignificância dum cigarro? Não, não acenderei, nem hei de apedrejar a mão vil que me afaga e, muito menos, escarrar na boca que me beija, mas eu vos direi apenas num segundo que se a minha vida há de dissolver igualmente a uma célula caída na aberração de um óvulo infecundo, fique sabendo que é o agregado abstrato das saudades que ficará batendo nas perpétuas grades do último verso que eu fizer no mundo.


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